Perda gestacional: o que aprendi como professora de yoga para gestantes vivendo a própria perda

Eu sempre digo que minhas turmas de gestantes vêm de safra.
Os bebês nascem quase juntos.

Era um desses períodos. Oito grávidas.
Dezembro a março seriam meses de nascimentos.

Todos os bebês tinham nascido.
Faltavam duas.

Uma delas estava chegando às 40 semanas.
Estávamos todas na expectativa.

Até que o telefone tocou.

Eu atendi feliz, achando que ouviria: “nasceu”.

Era o marido.

O bebê havia nascido sem vida.


O dia em que eu me senti pequena

Eu não estava preparada para aquilo.

Eu sei lidar com vida.
Eu não sabia lidar com morte.

Eu não sabia o que dizer.
Não sabia como acolher.
Não sabia como existir naquele lugar.

Eu tinha uma filha pequena na época.
Eu não conseguia compreender o que é ir ao hospital para parir
e voltar para casa sem bebê.

Aquilo me desmontou.

Faltava apenas uma gestante para parir naquela turma.
Eu disse a ela que não daria mais aula.

Eu não estava bem.
Eu não sabia sustentar aquilo.

E eu realmente parei.

Fiquei quase dois anos sem dar aula de yoga para gestantes.
Porque eu entendi uma coisa:
se eu não sei lidar com isso, eu não posso conduzir.


O chamado para voltar

Dois anos depois, aquela última gestante me procurou.

Ela estava grávida novamente.

E disse:
“Eu sei por que tu parou. Mas eu estou grávida. E eu quero fazer yoga contigo.”

Aquilo me atravessou.

Eu senti medo.
Mas senti também um chamado.

Percebi que fugir não me ensinaria nada.
Eu precisava olhar para essa dor.

Foi ali que comecei a estudar com mais profundidade o luto gestacional.
Não para ter respostas.
Mas para ter presença.

Depois disso, acompanhei outras mulheres que viveram perdas — muitas delas no início da gestação.
E fui aprendendo, com humildade, que ninguém sabe exatamente o que fazer quando isso acontece.

A gestante não sabe.
A família não sabe.
O instrutor muitas vezes também não sabe.


Quando aconteceu comigo

Existe uma frase que diz:
“O inteligente aprende com suas próprias experiência.
O mais inteligente aprende com a experiência dos outros”.

Eu aprendi com a experiência de muitas mulheres.

Mas, em algum lugar silencioso dentro de mim, eu pensava:
“Isso não vai acontecer comigo. Eu já olhei tanto para isso.”

E aconteceu.

Há dois anos, eu tive uma perda gestacional.
Não foi uma perda simples. Foi uma gravidez ectópica.

Uma situação grave.
Rompimento.
Cirurgia.
Risco real.

Eu, que já tinha estudado tanto o luto gestacional.
Eu, que já tinha acolhido tantas mulheres.
Me vi do outro lado.

E ali eu entendi algo que a teoria não ensina:

Consciência não substitui experiência.


O que a dor revela

Mesmo sabendo que perdas acontecem.
Mesmo sabendo que não é culpa da mulher.
Mesmo entendendo os processos biológicos.

A dor vem.

Vem a culpa.
Vem a pergunta silenciosa:
“O que eu fiz de errado?”

Existe um corpo que se preparou para gerar vida.
Um corpo que mudou.
Que abriu espaço.
Que se organizou hormonalmente.

E de repente, não há bebê.

O corpo precisa se reorganizar.
A mente tenta buscar sentido.
O coração tenta sobreviver.

A dor não é racional.
E o luto não é linear.

Eu senti no físico.
Senti no emocional.
Senti no espiritual.

E mesmo depois de dois anos, ainda existem camadas sendo processadas.

Existe um poder nessa dor quando ela é atravessada com consciência.
Não é um poder bonito.
Não é confortável.
Mas é transformador.


O que isso tem a ver com a prática de yoga?

Tudo.

Depois da minha experiência, eu nunca mais sentei ao lado de uma mulher em luto do mesmo jeito.

Hoje eu não tento explicar espiritualmente.
Não tento justificar.
Não digo que “tinha que ser assim”.

Eu sento.
Eu escuto.
Eu respiro junto.

Às vezes a prática precisa ser mínima.
Às vezes é só alongar devagar.
Às vezes é só existir.

Yoga, nesses momentos, não é sobre força.
É sobre espaço.

Espaço para sentir.
Espaço para chorar.
Espaço para não ter respostas.


Para instrutores de yoga que trabalham com gestantes

Perdas gestacionais acontecem.

E quando acontecem, não é técnica que sustenta.
É maturidade emocional.

A teoria ensina adaptações posturais.
A experiência ensina presença.

Se você conduz yoga para gestantes, precisa saber que o luto gestacional pode atravessar sua turma em algum momento.

E estar preparado não significa ter todas as respostas.
Significa não fugir quando a dor chega.

No meu Curso de Especialização em Yoga para Gestantes, eu abordo esse tema com a profundidade que ele merece, não como um tópico teórico, mas como parte real da caminhada de quem trabalha com vida.

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Porque trabalhar com gestantes é trabalhar com a vida.
E também reconhecer que a morte faz parte do ciclo.

Fugir disso não nos torna mais espirituais.
Nos torna menos preparados.


Se este texto fez sentido para você

Se você é instrutor de yoga e sente que precisa se aprofundar para conduzir com mais consciência, responsabilidade e maturidade emocional, conheça a formação completa.

E se você é mulher e viveu uma perda, saiba:
você não está sozinha.

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Com respeito,
Mônica 🌿


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